segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Em "O novíssimo testamento" é a vez do feminino escrever um inédito conteúdo bíblico


Numa mistura de fábula com crítica à religião o indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 2016 pela Bélgica, "O novíssimo testamento"(2015) do diretor Jaco van Dormael, retrata de uma maneira divertida, inteligente e espontânea a criação de um novo testamento, baseado na peregrinação de Ea (Pili Groyne), filha de Deus (Benoît Poelvoorde). A família sagrada, mora na Bélgica, em um apartamento simples, sem nunca terem ido as ruas da cidade. Em uma sala escura, com apenas uma mesa e computador, Deus, homem branco, controla a vida das pessoas de um modo vingativo e cruel criando leis ridículas e se divertindo com essas atitudes. Com sua filha e esposa, o comportamento não é diferente, pois maltrata a mulher e bate em Ea.

Para vingar-se de Deus, Ea num ato corajoso invade seu computador e envia a data de falecimento de todos os seres humanos. Ao receber o dia e horário da morte pelo celular, cada indivíduo reage de um modo diferente, uns param de trabalhar, outros desafiam a morte e alguns continuam da mesma maneira. Devido a sua ação, Ea conta com a ajuda de JC, que aparece apenas como uma pequena estátua, para fugir de casa e ir para às ruas de Bruxelas à procura de seis pessoas, possíveis apóstolos para escreverem um novo testamento.

Com elementos de "O fabuloso destino de Amélie Poulain" (2001) de Jean-Pierre Jeunet, ao qual a personagem Amélie decide ajudar diversas pessoas, Ea na busca de encontrar seus seguidores também carrega a solidariedade em auxiliar seus apóstolos, compostos por uma mulher rica, um mendigo, uma mulher deficiente, um garoto que gosta de vestir-se de menina, um homem incapaz de amar, entre outros. As duas jornadas, Ea e Amélie dialogam através de uma narrativa clássica que enaltece o arquétipo feminino, ou seja, o ato de cuidar, proteger e amar, características do feminino que nos dois filmes, são expostas como soluções para diversos problemas.

A escancarada crítica à Deus, ao qual passa praticamente o filme todo "bebendo do próprio veneno" quando decide sair de seu esconderijo e trazer de volta Ea para consertar o computador, perpassa a ideia da possível necessidade de algo novo, de uma ideologia onde as pessoas possam estar mais conectadas umas com as outras, solidarizar-se com as deficiências de cada um, de apreciar as coisas mais simples da vida e de flertar com a alegria da existência.

O longa metragem com a fotografia em tons opacos, alude uma crítica a religião existente através da sátira, contudo como pano de fundo, emerge questões do papel do feminino na sociedade, até então dominado pelo masculino. Na peregrinação de Ea os relatos para o novíssimo testamento ganha outros elementos, e o simples fato de ser uma menina nessa jornada, abre espaço para o surgimento de uma esperança para os seres humanos.
CineBlissEK



Ficha Técnica: 

O novíssimo testamento (Le tout nouveau testament)
2015, Bélgica/França
Direção: Jaco van Dormael
Roteiro: Jaco van Dormael, Thomas Gunzig
Produção: Jaco van Dormael, Olivier Rausin
Fotografia: Christophe Beaucarne
Elenco: Benoît Poelvoorde, Pili Groyne, Catherine Deneuve, Yolande Moreau

Nenhum comentário:

Postar um comentário