quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O confronto de duas gerações em "Que horas ela volta?" é o filme selecionado para representar o Brasil no Oscar 2016


"Que horas ela volta?" da diretora Anna Muylaert é o filme brasileiro selecionado pelo MinC para representar o Brasil na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. A narrativa estrelada pela atriz Regina Casé como a emprega doméstica Val, retrata o confronto de duas gerações no âmbito familiar, social, cultural e econômico através das mudanças ocorridas no Brasil nos últimos anos. A história vista em vários lares brasileiros como algo comum, traz um certo desconforto ao ser discutida na telona ao mesmo tempo que emociona e proporciona diversas reflexões.

A pernambucana Val ao mudar de sua cidade natal, deixa para trás sua filha Jéssica (Camila Márdila) aos cuidados de outra pessoa para tentar uma vida melhor na metrópole. Em São Paulo, ela consegue um trabalho como praticamente uma "faz tudo" (babá, emprega, cozinheira) em uma família de classe média no Morumbi. Sua vida é voltada para cuidar do bem estar dos patrões e ainda fazer o papel de mãe para o jovem Fabinho (Michael Joelsas) desde sua infância. A cumplicidade e afeto entre os dois é tão intensa que em vários momentos, Fabinho prefere estar ao lado de Val do que de sua própria mãe, Bárbara (Karine Teles). 

A rotina desse núcleo familiar mais Val muda completamente quando a filha dela decide ir para capital para prestar vestibular na USP no curso de arquitetura e urbanismo. No entanto, por morar no próprio trabalho, Val pede aos seus empregadores se há a possibilidade de Jéssica ficar com ela um tempo até achar um lugar para residir, com o discurso de "você é praticamente da família", ela consegue a permissão de hospedar sua filha no quartinho de empregada.

Antes mesmo da chegada de Jéssica, a diretora Anna Muylaert já indica através de metáfora como a vinda da jovem causa estranheza por esta não se encaixar no sistema existente. No caso, Val presenteia Bárbara com um conjunto de xícaras preto e branco, uma bandeja e uma garrafa térmica, quando senta na cozinha para organizar os itens, Val não consegue encaixar a garrafa na bandeja junto com as xícaras e pires postas invertidas, ela confabula por vários minutos a opção de espaço para essa garrafa. Essa falta de lugar num espaço estabelecido, é justamente o papel de sua filha na casa de seus patrões, pois com a chegada de Jéssica há o questionamento dela com uma certa ingenuidade sobre as proibições estabelecidas na casa do que pode e não fazer.

Esse fator de impedimentos é constantemente demarcado no filme, seja através do sorvete de Fabinho que Jéssica não pode comer, do veto de sentar na mesa dos patrões para fazer as refeições ou até mesmo em proibir nadar na piscina. Essa última acaba gerando uma das cenas mais belas da narrativa, pois as duas estão ao lado da piscina em pleno verão e Jéssica pergunta se alguma vez Val entrou na água, esta diz claro que não, como se fosse a coisa mais correta a ser feita, enquanto que Jéssica não compartilha dos mesmos sentimentos e acaba entrando na primeira oportunidade quando o filho do casal junto de um amigo jogam ela na água. A situação se torna tão indigesta para a Bárbara que ela decidi limpar a piscina com o suposto motivo de aparição de rato. 

A jornada entre mãe e filha coloca em evidência os adventos econômicos do país, pois enquanto na época de Val os imigrantes nordestinos viajam para São Paulo em busca de trabalhos sem muita valorização, a geração de sua filha migra para a cidade grande à procura de uma qualidade de vida melhor vinda do estudo de um curso superior. Jéssica chega na capital paulista com objetivos claros de prestar o vestibular e acima de tudo com conhecimentos iguais ou superiores à família do Morumbi. Essa qualificação faz dela um retrato de uma nova geração de jovens vindos de classes mais baixas com condições de competir por vagas nas melhores universidades do país.

Justamente por estar fora desse padrão entre empregado x empregador, Jéssica traz um despertar para Val ao lhe questionar da onde ela aprendeu a ideia de "não pode isso, não pode aquilo" pois isso para ela não faz sentido, já para a mãe é algo que não se aprende, mas nasce sabendo. A presença de Jéssica na vida de Val proporciona transformações profundas na vida desta emprega doméstica, e auxilia para o renascer dessa personagem tão característica nas casas brasileiras. O momento da entrada de Val na piscina indica sua aceitação as mudanças internas e principalmente em agarrar sua vida de uma forma mais humana e igualitária. 

O filme privilegia o público com interpretações magníficas de Regina Casé e Camila Márdila, na qual ambas trazem naturalidade e espontaneidade para cada cena, sendo umas até cômicas. Esse fator é primordial para aliviar a tensão e dificuldade de trabalhar com um tema ainda delicado no Brasil que é a questão de classes sociais. Ponto positivo para a diretora que através de uma jornada entre mãe e filha consegue propor uma história com fundo político e social possível de reflexões e ricas discussões.
CineBlissEK




Ficha Técnica: 

Que horas ela volta?
2015, Brasil
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Produção: Anna Muylaert, Débora Ivanov, Caio Gullane, Fabiano Gullane
Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Lourenço Mutarelli, Michael Joelsas  

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