quinta-feira, 19 de março de 2015

O filme Tetro mostra a família com seu passado e segredos indigestos

 
 "Não solte a corda que ata tua alma" (frase do início do filme)

Por mais que o ser humano tente fugir de suas amarras do passado vez ou outro este passado bate à porta, no caso de Tetro filme de 2009 do diretor Francis Ford Coppola (O poderoso chefão e Apocalipse Now), esse momento deixado para trás surge na vida de Angelo Tetrotini (Vicent Galo) quando seu irmão mais novo, Benjamin (Alden Ehrenreich) lhe faz uma visita na cidade de Buenos Aires.

Angelo que em seu ano sabático deixa os Estados Unidos para viver na Argentina com um novo nome Tetro, não tem a mínima vontade de saber sobre as pessoas de sua família e muito menos revê-las. Mas com a chegada de seu irmão, essa fuga do passado não tem mais lugar, pois a presença familiar dele impõe recordar lembranças antigas e o mais difícil explicar para o jovem rapaz questões complicadas sobre o próprio pai. Bennie vem com intuito de esclarecer acontecimentos antigos e também reatar a relação de irmãos, mas o que ele não espera é a distância que esse irmão querido quer manter.

Outrora um brilhante poeta, Tetro/Angelo está distante e amargo, dividi sua casa em La Boca com sua companheira Miranda (Maribel Verdú) que o conhecera através do programa de rádio La Colifata quando este viera se apresentar carregando o rascunho de seu livro. Contudo com os anos Tetro abandona a arte da escrita e prefere se refugiar em suas angústias. Bennie em sua visita encontra os textos antigos do seu irmão e descobre que ali estão guardados os segredos da família arruinada por rivalidades, o jovem é a personagem responsável por mover a engrenagem da história. 

Novamente o diretor trabalha com a questão da família e todas as complicações que isso envolve, como cada indivíduo lida com as dificuldades do grupo familiar. Uns reagem através da rivalidade, da falta de comunicação e outros preferem fugir para não ter que enfrentar, como é o caso de Tetro que a todo custo busca escapar de qualquer tipo de relacionamento com seu pai, ao qual implica em se distanciar de seu irmão que lhe tem uma grande admiração. Tetro causa tanta inspiração em Bennie ao ponto deste lhe dizer que sonha ser um escritor assim como ele.

Na linguagem simbólica fica evidente que a personagem de Tetro tem dificuldade com sua base (família), pois no começo do filme ele se encontra com gesso em sua perna e pé, indicando uma imobilidade e dor na base do seu corpo que simbolicamente representa a família. Ele muda de nome para ser outra pessoa com uma nova história e identidade, mas busca isso em sua origem, pois no filme a família Tetrotini nasce em Buenos Aires e só depois se muda para os Estados Unidos.

A belíssima fotografia em preto e branco que muda para o colorido quando episódios do passado da família Tetrotini surgem ou com cenas do filme Coppelia de Contos de Hoffman, trazem uma singularidade e autenticidade a história difícil de se ver no cinema atualmente. Há vários momentos da incidência forte de luz ou da escuridão, dando ainda mais crédito as imagens. Esse jogo de luz já é visto logo no começo do filme quando Tetro olha diretamente para uma lâmpada, como se buscasse por uma iluminação em sua vida para encarar a verdade.

Coppola brinca com o uso de espelhos praticamente o filme todo, principalmente em momentos de confronto entre os irmãos em que o público não visualiza as duas personagens, mas apenas um e a imagem do outro refletida no espelho. Outro mérito da história é trazer a arte em toda a trama, seja através da dança com Miranda, da literatura com Tetro e Bennie, da música com o pai e do teatro com as apresentações no café e do festival da Patagônia com a presença da crítica teatral Alone (Carmen Moura).

O filme na sua estreia em 2009 não empolgou muito a crítica especializada pois se tratando de Francis Ford Coppola a expectativa é sempre alta, mas não se pode deixar de admirar o trabalho de um diretor conceituado ao buscar por uma forma de filmar mais autoral e mostrar o porque de ser considerado um dos grandes diretores vivos do cinema.  
CineBlissEK




Curiosidades:


  • O filme foi todo rodado em cor e depois convertido para preto e branco;
  • A cantora uruguaia de ópera Adriana Mastrangelo faz uma ponta como ela mesma em Tetro;
  • Francis Ford Coppola resolveu rodar Tetro em widescreen como forma de evocar os filmes dirigidos por Akira Kurosawa;
  • Indicação para Maribel Verdú como Melhor Atriz  no festival de Goya.

Ficha técnica:

Tetro (Tetro)
2009, Argentina, Itália, Espanha, EUA
Direção: Francis Ford Copolla
Roteiro: Francis Ford Copolla
Produção: Francis Ford Coppola, Gerardo Herrero
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Elenco: Alden Ehrenreich, Vincent Gallo, Carmen Moura, Maribel Verdú

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