quinta-feira, 18 de outubro de 2018

42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - O filme russo "Verão" é um deleite sonoro e visual


A 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que inicia-se hoje na capital paulista é um deleite para o público de todos os gostos. A seleção está composta por 336 títulos, de diferentes partes do mundo e, um dos selecionados é o russo "Verão" (2018), do diretor Kirill Serebrennikov (O estudante), que concorreu à Palma de Ouro em Cannes. Baseado em eventos reais, a narrativa com um deslumbre de fotografia em preto e branco, retrata a cidade de Leningrado, durante o verão de 1980, especificamente no nicho de jovens envolvidos com o rock underground. 

Nesse ambiente controverso à reestruturação econômica da Perestroika, encontra-se o casal Mike (Roman Bilyk) e Natasha (Irina Starshenbaum) envoltos com a busca de vivenciar todas as nuances da música ao lado do grupo de amigos, mesmo que isso signifique ser cautelosos em relações às letras e nas performances. Por sua vez, o aparecimento de Viktor Tsoï (Teo Yoo), um jovem inquieto à procura de se estabelecer no cenário musical, desperta em Mike um sentimento de paternidade, de querer ajudar e, em Natasha, um desejo adormecido formando um triângulo amoroso.

Em meio aos concertos, encontros e trocas, os três expõem para o público o poço sem fundo da censura e uma vontade de se rebelar contra esse sistema. Se tudo é proibido, se para tudo precisa-se pedir autorização, o único lugar para se ver livre é através da imaginação e, em diversas cenas, o filme enaltece essa ânsia coletiva. Como por exemplo, na sequencia em que o grupo de amigos encontra-se dentro do metrô e um deles é retirado por policiais por ter opiniões contrárias ao governo, nesse momento entoa a canção "Psycho killer", do Talking Heads, lembrando um videoclipe e uma tentativa de ter um final diferente para a realidade. 

Em todo desenrolar da narrativa é possível identificar como pano de fundo a presença do autoritarismo, de militares, da censura e, mesmo assim, o lirismo musical se sobressaindo a toda essa conjuntura. A embriaguez estética e sonora é um presente para os olhos e ouvidos do público. 

Vale lembrar que o cineasta Kirill Serebrennikov encontra-se em prisão domiciliar desde 2017, sob acusação de desvio de dinheiro público e, por esse motivo, não teve permissão para deixar o país para apresentar o filme no Festival de Cannes, em maio desse ano. 

Segue abaixo as datas, horários e lugares de exibição do filme "Verão". A 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acontece entre os dias 18 a 31 de outubro. Para maiores informações acesse o site 42 Mostra
CineBliss

Datas e Horários: 
18/10 (quinta-feira) - 16h40 - Reserva Cultural
19/10 (sexta-feira) - 19h30 - Cinesala
21/10 (domingo) - 17h20 - Espaço Itaú de Cinema Frei Frei Caneca 
28/10 (domingo) - 19h20 - Reserva Cultural



Ficha técnica: 

Verão (Leto)
Rússia, 2018
Direção: Kirill Serebrennikov
Roteiro: Mikhail Idov, Lili Idova, Kirill Serebrennikov
Produção: Pavel Burya, Georgy Chumburidze
Fotografia: Vladislav Opelyants
Montagem: Yuri Karikh
Elenco: Teo Yoo, Irina Starshenbaum, Roman Bilyk 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

CineBliss marca presença na coletiva de imprensa de lançamento da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


O blog CineBliss participou no último sábado (06) da coletiva de imprensa de lançamento da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre os dias 18 a 31 de outubro, na capital paulista em mais de 30 espaços, entre cinemas, museus e locais culturais. A coletiva contou com a participação da organizadora do evento Renata de Almeida, do Secretário Municipal de Cultura de São Paulo André Sturm, da Gerente de Ação Cultural do Sesc Rosana Paulo da Cunha, dos representante da Petrobras Rodrigo Diullas, do Itáu Claudiney Ferreira, da CPFL Mario Mazzilli e do Diretor-presidente da Spcine Mauricio Andrade de Ramos

Durante a coletiva de imprensa foram destacados os filmes "A favorita", de Yorgos Lanthimos, vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri, selecionado para abrir o evento no dia 17 de outubro, em sessão para convidados no Auditório Ibirapuera; o título mexicano "Roma", de Alfonso Cuáron, que logrou o troféu Leão de Ouro no Festival de Veneza e encerra a programação no dia 31 de outubro. Outros destaques da seleção de títulos da 42ª Mostra são para: "Não me toque", da romena Adina Pintilie vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, o cingapuriano "Uma terra imaginada", de Siew Hua Yeo, que logrou o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, "A casa que Jack construiu", de Lars von Trier, o brasileiro "O grande circo místico", de Cacá Diegues, o polonês "Guerra Fria", de Pawel Pawlikowski, o sul-coreano "Em chamas", de Chang-Dong Lee, o libanês "Capernaum", de Nadine Labaki, o dinamarquês "Culpa", de Gustav Moller, "Infiltrado na Klan", do americano Spike Lee, entre outros.

O prêmio Leon Cakoff desta edição é para o cineasta iraniano Jafar Panahi, cuja obra recente "3 faces", vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, integra a programação. Já o Prêmio Humanidade homenageará duas pessoas: o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, que também terá seu novo trabalho "Assunto de família" vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes este ano, compondo a seleção de títulos, e, ao brasileiro Drauzio Varella - não cineasta, mas um produtor de imagens - que participará  da mesa Da Vida à Palavra; Da Palavra à Imagem, no II Fórum Mostra. O centenário do líder sul-africano Nelson Mandela será celebrada com a exibição de quatro títulos, entre eles o inédito "O estado contra Mandela e os outros", de Gilles Porte e Nicolas Champeaux.

A 42ª Mostra ainda vai apresentar várias sessões especiais entre elas, os 20 anos de "Central do Brasil", de Walter Salles que contará com a participação do diretor e elenco principal; "O bandido da luz vermelha", de Rogério Sganzerla, e, "O bravo guerreiro", de Gustavo Dahl, ambos com seus 50 anos de lançamento, além de "Feliz Ano Velho", de Roberto Gervitz que completa 30 anos. 

As produções da América Latina também farão parte do evento com 30 títulos selecionados, incluindo dois filmes do premiado cineasta argentino Fernando Solanas com "La hora de Los Hornos" e o inédito "Viaje a los pueblos fumigados. Para conferir a programação completa da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é só acessar o site: 42Mostra
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

CineBliss esteve presente no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


O blog CineBliss esteve presente no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro que ocorreu no período de 14 a 23 de setembro, na capital federal. Foram 9 dias de contato direto com o universo cinematográfico brasileiro, dos quais o blog teve o privilégio de participar. Dentre as exibições das produções da Mostra Competitiva com 12 curtas e 9 longas-metragens, o evento também proporcionou debates com os realizadores, além de encontros de pessoas ligadas à produção audiovisual brasileira em um espaço denominado Ambiente de Mercado

Os prêmios da Mostra Competitiva foram anunciados no último domingo (23), com destaque para o longa-metragem mineiro "Temporada" (2018), do realizador André Novais Oliveira (Ela volta na quinta), que logrou o troféu Candango nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Gracê Passô, Melhor Ator Coadjuvante para Russo Apr, Melhor Fotografia para Wilsa Esser e Melhor Direção de Arte para Diogo Hayashi. A história situada na periferia de Contagem, Minas Gerais, se destina a observar com carinho a personagem Juliana (Gracê Passô), quando esta muda-se para a cidade por causa de um novo trabalho. Nesse ambiente desconhecido, a protagonista se depara com experiências singulares que irão afetar a sua jornada e converter-se em combustível para transformações. Um recorte aparentemente simples sobre a rotina de Juliana, mas que nas entrelinhas esconde um emaranhado de emoções. 




Outro destaque da premiação foi para o segundo longa-metragem da baiana Gabriela Amaral Almeida, "A sombra do pai" (2018) com a conquista de três estatuetas nas categorias de Melhor Atriz Coadjuvante para Luciana Paes, Melhor Som para Daniel Turini e Melhor Montagem para Karen Akerman. A emocionante narrativa misturada com um toque de horror, é retratada por meio da relação entre pai e filha com os personagens Jorge (Júlio Machado) e Dalva (Nina Medeiros). Após a morte da mãe e do abandono da tia Cristiana (Luciana Paes) da casa,  Jorge e Dalva são obrigados a construirem uma aproximação afetiva, porém, quando o amigo de trabalho de Jorge morre, este se fecha ainda mais para com suas emoções, ausentando-se do papel de pai e aos poucos demonstrando uma aparência de zumbi. Por sua vez, Dalva busca refúgio em filmes de terror e em suas crenças, o que a faz acreditar ser capaz de trazer sua mãe de volta. 


No quesito Júri Popular o prêmio de Melhor Longa-metragem foi para o documentário "Bixa Travesty" (2018), dos realizadores Claudia Priscilla e Kiko Goifman que abordaram a jornada de desconstrução de estereótipos de raça, gênero e classe da cantora transexual negra Linn da Quebrada. No documentário é possível observar a rotina de trabalho da cantora, os shows e programas de rádios feitos ao lado de Jup do Bairro e também sua intimidade junto da mãe e de amigos. Mesmo com assuntos polêmicos, o tempero da narrativa dá-se por meio do bom humor dos diálogos e, assim permite ao público sair da sessão com ares de reflexão e de desejo de potência transformador. 




Segue abaixo dois vídeos de realizadores das produções "Bloqueio" e "Ilha", que também estiveram presentes na Mostra Competitiva durante o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Viva o Cinema Brasileiro! 
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"Bloqueio" 
2018, PE/RJ 
Documentário
Victoria Álvares e Quentin Delaroche


"Ilha" 
2018, BA
Ficção
Ary Rosa e Glenda Nicácio  


terça-feira, 18 de setembro de 2018

"O retorno do herói" retoma a comédia de aventura francesa de modo cativante e atual


O diretor francês Laurent Tirard conhecido por obras cinematográficas como "O pequeno Nicolau" (2009), "Astérix e Obélix: A serviço de sua majestade" (2012) e "Um amor à altura" (2016), lança na próxima quinta-feira (20) seu mais recente trabalho "O retorno do herói" (2018). O filme de época é situado na França, do século XIX, por meio de uma comédia de aventura e romântica projetada em personagens completamente distintos: o Capitão Neuville (Jean Dujardin), um homem sedutor, carismático e sem escrúpulos, e,  Elisabeth Beaugrand (Mélanie Laurent), uma mulher séria, determinada e moderna.

A narrativa começa com a chegada do Capitão Neuville na mansão da família Beaugrand para pedir em casamento a irmã de Elisabeth, a jovem Pauline (Nóemie Merlant). O militar surge em um lindo espaço aberto, montado em seu cavalo e vestido com um reluzente uniforme vermelho, tudo muito pomposo, porém, assim que recebe o sim como resposta é convocado para o front de batalha, deixando a noiva de coração partido. Sem enviar nenhuma correspondência para futura esposa, esta acaba adoecendo, o que obrigada a Elisabeth dar asas à imaginação e começar a escrever cartas para Pauline se passando pelo Capitão Neuville. Nos escritos fictícios, a jovem cria a imagem de um herói com várias histórias de combate, superação e, chega até mesmo, a mata-lo num ato de muita coragem.

Todavia, o destino traz de volta o Capitão Neuville para a surpresa de todos e o desespero de Elisabeth que sem alternativas faz um pacto com ele. Logo, o que era uma relação de negócios selada por desavenças e ódio, abre espaço para outros sentimentos afetivos.

Para o filme "O retorno do herói", o diretor comenta que buscou inspiração em dois universos: "Jane Austen, com seu estilo e refinamento, e seus personagens presos em códigos sociais rigidos, e o mundo das comédias de aventura francesas, com seu dinamismo, a sua correria frenética e o seu forte gosto por personagens canalhas. Eu pensei que misturar os dois causaria um choque cultural". 

Esse ritmo dinâmico e bem humorado é algo recorrente no filme, o que possibilita um roteiro fluído e leve, bem como atual na questão da ascensão social, do status econômico e na desconstrução de padrões culturais referentes às mulheres. Como por exemplo, na cena de negociação da parceria entre Elisabeth e Neuville, cujo diálogo remete às desigualdades salariais entre homens e mulheres, ou até mesmo no fato de Elisabeth estar solteira por opção, e não ter problemas com isso. 

A atriz francesa Mélanie Laurent, esclarece que interpretar em sua primeira comédia a personagem Elisabeth, uma feminista antes de seu tempo com seu lado cômico foi interessante porque: "Ela afirma claramente suas opiniões no filme, ela fala disso. Sempre me sinto atraída para interpretar mulheres com fortes personalidades e convicções" . 

"O retorno do heroi", mesmo se passando no final do reinado de Bonaparte, faz referencia às incongruências do nosso mundo de hoje, sem flertar com a paródia. Os personagens com seus modos cativantes, engraçados e também ambíguos, permite ao público vivenciar uma experiência encantadora e nutrida  de muito riso. 
CineBliss


Ficha técnica: 
O retorno do herói (Le retour du héros)
França, 2018
Direção: Laurent Tirard
Roteiro: Laurent Tirard, Grégoire Vigneron
Elenco: Jean Dujardin, Mélanie Laurent, Nóemie Merlant

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A coprodução brasileira "As herdeiras" estreia hoje nos cinemas com uma bagagem recheada de prêmios


A coprodução brasileira "As herdeiras" (2018), do diretor paraguaio Marcelo Martinessi, logrou no último sábado (25) seis dos oito prêmios da competição de longas estrangeiros no Festival de Cinema de Gramado, incluindo Melhor Filme, Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Filme pela Crítica, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz para Ana Brum, Margarita Irun e Ana Ivanova e, no Festival de Berlim 2018, foi laureado com Melhor Filme pela crítica FIPRESCI. O longa-metragem que estreia hoje nos cinemas, aborda de forma delicada o esfacelamento financeiro de duas herdeiras de famílias ricas no Paraguai. 

Com seus mais de 60 anos Chiquita (Margarita Irun) e Chela (Ana Brum), vivem juntas confortavelmente em uma casa há cerca de 30 anos. No entanto, elas observam não haver dinheiro suficiente para continuarem com o mesmo padrão de vida e, com isso, começam a vender os bens, incluindo móveis e louças. O desapego de objetos valiosos é encarado por cada uma de forma diferenciada, para a primeira algo necessário a ser feito, já para segunda há uma certa resistência e desconforto, uma vez que não quer contar para nenhuma das amigas a situação financeira e evitar falatórios. 

O modo distinto das personagens de lidarem com a crise, abre o leque para  particularizar a índole de cada uma, ao ponto de Chiquita ser presa por cobranças fraudulentas e  Chela ficar em casa, meio perdida aos cuidados da empregada doméstica Pati (Nilda Gonzalez). Devido aos acasos da vida, Chela inicia um serviço de táxi para senhoras ricas o que permite conhecer Angy (Ana Ivanova), uma mulher envolvente e misteriosa. O convívio entre as duas desperta em Chela sentimentos conflitantes, permitindo aflorar uma sensualidade esquecida.  

A ausência da figura masculina projeta uma narrativa construída no âmbito das relações entre as mulheres, o modo como as personagens cuidam uma das outras ou como se deixam afetar pela outra demonstra uma singularidade, uma vez que, o universo feminino na terceira idade é pouco explorado pelo cinema. Outra questão também exposta em "As herdeiras", é a de classe social por meio da relação entre patrão versus empregado, como por exemplo, as cenas em que Chela dá ordens para Pati, seja em abrir a porta ou a garrafa de vinho ou em como organizar a bandeja.

A casa revela-se como uma peça fundamental para o filme, pois é onde se desenvolve a maioria das cenas com a presença marcante de ruídos e o abrir e fechar de portas. A cenografia também merece destaque já que os objetos da casa ou o carro são colocados em evidência em várias sequencias, estampando o quão presa está a personagem de Chela à situação.

"As herdeiras" traça o caminho do afeto e das descobertas na terceira idade feminina, se sensibilizando com as dificuldades e conflitos que possa aparecer nessa fase da vida e, apostando nos imprevistos que surgem quando as pessoas deixam de resistir e aceitam as situações. Assim como Chela, ao guiar o espectador nessa narrativa delicada e emocionante.
CineBliss



Ficha técnica: 

As herdeiras (Las herederas) 
Paraguai/Brasil/Alemanha/França/Uruguai, 2018
Direção: Marcelo Martinessi
Roteiro: Marcelo Martinessi
Produção: Karen Franenkel
Elenco: Ana Brum, Margarita Irun, Ana Ivanova, Nilda Gonzalez

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O filme "Escobar: A traição" retrata sob o ponto de vista de Virginia Vallejo, o apogeu e declínio do narcotraficante Pablo Escobar


Em 2015 a rede de streaming Netflix produziu o seriado "Narcos" com duas temporadas baseadas na vida do narcotraficante colombiano Pablo Escobar, interpretado pelo ator brasileiro Wagner Moura. Já o filme "Escobar: A traição" (2017), que estreia hoje nos cinemas, destina o papel principal para o ator espanhol Javier Barbem, ao lado de sua esposa na vida real Penélope Cruz dando vida à famosa jornalista Virginia Vallejo, amante de Escobar por seis anos. Um dos diferenciais mais marcantes entre o seriado e o longa-metragem é o ponto de vista da narrativa, no primeiro é do agente americano do DEA, Steve Murphy (Boyd Holbrook) e, no segundo da própria Virginia.  

Com a direção de Fernando León de Aranoa (Um dia perfeito), o filme baseado no livro "Amando Pablo, Odiando Escobar", escrito pela jornalista/amante Virginia Vallejo, retrata a ascensão, o triunfo e a queda do reinado de Escobar.  Os 123 minutos de duração, sintetiza a forma como o traficante colombiano se relacionava com seus subalternos, com os políticos, com as pessoas famosas, com seus aliados e inimigos, com sua família e, em especial o relacionamento extraconjugal com Virginia.     

Para quem assistiu o seriado, algumas cenas vão parecer familiares, como a morte do Ministro da Justiça, o atentado ao avião - todos à mando de Escobar -, e, até mesmo a construção do próprio presídio. Já outras situações, aparecem tão violentas quanto, como as matanças desordenadas à policiais colombianos ou de um dos capangas do traficante sendo massacrado por seus inimigos com um cachorro em suas costas.  

Javier Barbem, além de protagonizar também é produtor do filme e, comenta o porque de ter recusado várias vezes o papel de interpretar o narcotraficante. "Pelos últimos 20 anos, me ofereceram vários papéis de Pablo Escobar, mas sempre os recusei porque nenhum passava de um estereótipo". À vista disso, em "Escobar: A traição" o ator entrega uma performance expressiva, porém, sem exageros, do qual possibilita identificar as nuances de personalidade de Escobar, ora extremamente forte e violento ora vulnerável.  Penélope Cruz, também entrega um trabalho notável, uma vez que expressa com naturalidade o lado sedutor, profissional e descontrolado da jornalista Virginia Vallejo. 

A narrativa falada no idioma inglês, é construída com ritmo tenso e provocador prendendo a atenção do espectador durante todo o filme. As informações por mais que não tenha uma maior durabilidade de tempo como no seriado, consegue explorar os acontecimentos marcantes da vida de Pablo, sem parecer superficial. Para quem é intrigado pela história pessoal do narcotraficante colombiano, "Escobar: A traição" é mais uma versão desse homem tão complexo, cuja personalidade encantou e assombrou milhares de pessoas. 
CineBliss
Ficha técnica: 
Escobar: A traição (Loving Pablo) 
Espanha, 2017
Direção: Fernando León de Aranoa
Roteiro: Fernando León de Aranoa, Virginia Vallejo
Produção: Aleksander Kenanov, Dean Nichols, Ed Cathell III, Javier Bardem, Kalina Kottas, Miguel Menéndez de Zubillaga
Fotografia: Alex Catalán
Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

"O Animal Cordial" disseca visceralmente embates de cunho social banhado com muito sangue


A diretora baiana Gabriela Amaral Almeida conhecida pelos curtas-metragens "Uma Primavera" (2010), "A mão que afaga" (2011) e "Estátua" (2014), lança hoje nos cinemas seu primeiro longa-metragem "O animal cordial"(2017), com a produção de Rodrigo Teixeira. Categorizado como slasher movie - subgêneros do terror - o filme se desenrola em um restaurante de classe média em São Paulo em apenas uma noite, quando é subitamente invadido por dois bandidos armados, no fim do expediente.

Dentro do estabelecimento encontra-se o pacato dono Inácio (Murilo Benício), a fiel garçonete Sara (Luciana Paes), o cozinheiro Djair (Irandhir Santos) e os clientes Amadeu (Ernani Moraes), Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado). Diante da situação do assalto em que possivelmente se teria o roubo concretizado, a narrativa se direciona para o sentido oposto, uma vez que Inácio reage e decidi dar um rumo completamente diferente para cada um dos personagens. 

O restaurante um tanto quanto decadente, mas que finge ser chique, perpassa a sensação de claustrofobia com suas portas e janelas fechadas. Esse ambiente embriagado pela sensação de perigo, torna-se propício para diversos embates sociais tais como empregado versus patrão; homem versus mulher; ricos versus pobres, entre outros. Como por exemplo, logo no começo do filme quando Sara atende a mesa do casal Bruno e Verônica e a última trata a garçonete com desdém, ou, nas várias discussões entre Inácio e Djair.  

As performances dos intérpretes merece destaque pois transitam com maestria a ambiguidade dos personagens, cujo processo de desconstrução ao longo da narrativa permite que os desejos e violências internas venham à tona e o lado animalesco se sobressaia, em particular de Inácio e Sara. Os atores Murilo Benício e Luciana Paes, lograram prêmios referentes aos seus papéis, respectivamente, o de Melhor Ator no Festival do Rio 2017 e de Melhor Atriz no FantasPoa 2018.

Essa trágica fábula da violência na sociedade brasileira, tem no roteiro assinado pela própria Gabriela uma reflexão e provocação sobre até que ponto pode-se vangloriar em relação ao conceito de  civilização. Haja visto, que a força oposta desse conceito - a barbárie - está numa linha tênue nas engrenagens dos comportamentos das pessoas. No caso de "O animal cordial", esse embate visceral é efervescido com várias sequencias banhadas de muito sangue.
 

Para os admiradores do trabalho de Gabriela Amaral Almeida, o IMS (Instituto Moreira Salles) de São Paulo e Rio de Janeiro, terá uma programação especial neste final de semana apresentando os três curtas-metragens citados acima. Para conferir as datas e horários é só acessar o site. Já o segundo longa-metragem da diretora "A sombra do pai", foi selecionado pelo Sundance Institute para participar dos laboratórios de Roteiro, Direção e Música e Desenho de Som, assessorados por nada menos que Quentin Tarantino, Robert Redford, entre outros.
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Ficha técnica: 

O animal cordial (O animal cordial)
Brasil, 2017
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Produção: Rodrigo Teixeira
Fotografia: Barbara Alvarez 
Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Camila Morgado, Humberto Carrão