sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"Mulheres Divinas" esbanja simpatia ao retratar a busca das mulheres por igualdade de direitos


O ano é 1971, em uma vila suíça, que o filme "Mulheres Divinas", da diretora Petra Biondina Volpe  seleciona para retratar as condições de opressão das mulheres brancas, cujos efeitos dos movimentos feministas ao redor do mundo, não passam apenas de notícias de jornais. Selecionado pela Suíça para disputar uma vaga na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a narrativa esbanja simpatia ao dosar de um modo equilibrado a seriedade da busca das mulheres por mudanças numa sociedade dominada pelos homens, com uma pitada de humor inteligente para denunciar o modelo de domínio e submissão.

Neste vilarejo, mora a dona de casa Nora (Marie Leuenberger) ao lado de seu marido Hans Grube (Maximilion Simoniscchek) e seus dois filhos. Como padrão da sociedade patriarcal, ela exerce suas funções apenas no espaço privado - cuida da casa, dos filhos, do marido, do sogro - e, só pode vir a trabalhar com a permissão do marido. Devido alguns acontecimentos em sua rotina relacionados à ausência de protagonismo feminino e voz ativa em sua família, Nora despertar para lutar pela liberação das mulheres e, consequentemente, pelo direito ao voto feminino, já que na Suíça o sufrágio universal ainda não era uma lei. Na jornada em busca de promover transformações à favor das personagens femininas, Nora enfrenta preconceitos não só dos homens que debocham de sua atitude, mas até mesmo, das mulheres da vila.

O roteiro construído de forma didática e primoroso, expõe as dificuldades enfrentadas por essas personagens que decidiram reivindicar por igualdade de direitos e, subverter a imagem da mulher ideal, ou seja, "bela, recatada e do lar", sem voz ativa ou sem desejo sexual. Em várias sequencias, são escancarados os clichês utilizados pela sociedade machista com intuito de oprimir as mulheres como o pai falando com o filho "na minha época as mulheres não se comportavam assim", de Hans com Nora "sorte que não tivemos filhas" ou "você não precisa trabalhar fora, o que eu ganho é suficiente para vivermos".

A questão da repressão da sexualidade feminina também é exposta no filme, tanto na busca das mulheres em adquirirem conhecimento sobre o próprio corpo e, assim, desejarem sentir orgasmo, quanto em mostrar que a transgressão da mulher não é bem-vinda na sociedade machista e por isso, merece ser repreendida, como no caso da sobrinha de Nora.

"Mulheres Divinas" contempla uma reflexão calorosa e intensa sobre como as mulheres foram tratadas como cidadãs de segunda classe por muito tempo, restringida, com raríssimas exceções, ao espaço privado. Todavia, o tom cômico utilizado no filme, permite que o discurso político seja transmitido de modo em angariar simpatizantes - tanto homens quanto mulheres - para uma sociedade igualitária e, não em dividi-los em hierarquias de dominante versus dominado.  
CineBliss




Ficha técnica: 

Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung)
Suíça, 2017
Direção: Petra Biondina Volpe 
Roteiro: Petra Biondina Volpe 
Produção: Lukas Hobi, Reto Schaerli 
Elenco: Marie Leuenberger, Marta Zoffoli, Rachel Braunschweig, Sibylle Brunner

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

"Em busca de Fellini" contempla uma carta de amor à Itália



O diretor italiano Federico Fellini (1920-1993), é o grande homenageado do filme "Em busca de Fellini" (2016), do diretor Taron Lexton. Nessa aventura de autoconhecimento e descobertas, retratada em 1993, tem-se a jovem americana Lucy (Ksenia Solo) morando com a mãe super protetora Claire (Maria Bello), em Cleveland, Estados Unidos, quando entra em contato pela primeira vez com as obras cinematográficas do cineasta italiano. Com seus 20 anos, sem nunca ter trabalhado ou feito uma faculdade, Lucy decidi embarcar para Itália, para conhecer o responsável pelas obras tão mágicas e humanas vistas na tela de cinema.

Com uma fotografia de luz intensa e tonalidades quentes - propositalmente para realçar as belezas turísticas italianas -, Lucy depara-se no país com diversos personagens bizarros, que fizeram parte do repertório de Fellini. As referências passam por Cabíria de "Noites de Cabíria" (1957), Guido de "A doce vida" (1960) e, Gelsomina de "A estrada da vida" (1954). A última, ganha destaque por caracterizar a própria Lucy, que assim como Gelsomina, tem uma índole ingênua e caminha pela estrada da vida com olhares cabisbaixos. 

O conceito do filme é criativo e envolvente, no entanto, a forma como é conduzida a narrativa deixa um pouco a desejar, visto que, o romantismo hollywoodiano acaba sobressaindo a reflexão sobre a decadência burguesa ou a crônica contra a miserabilidade, tão recorrentes nos filmes de Fellini. O universo felliniesco com imagens alucinógenas invadindo uma situação comum e colocando Lucy em situações bizarras, se faz presente no filme, mas sem a carga emocional de desilusão ou de esperança.  

Assistir "Em busca de Fellini" é adentrar num mundo de fantasia que na verdade, não te conduz para uma reflexão séria sobre o cotidiano de indivíduos frágeis perante uma sociedade cruel, como muitas vezes visto nos filmes de Fellini, e, sim, num passeio turístico por algumas cidades italianas  que foram retratadas nas histórias do mestre italiano. Para os apaixonados pelas obras de Federico Fellini, fica uma sensação amarga de ausência de algo, talvez uma pitadinha de desfiles circenses informais, pudessem ter expressado um pouquinho desse algo a mais. 
CineBlis



Ficha técnica: 

Em busca de Fellini (In search of Fellini)
Estados Unidos, 2017
Direção: Taron Lexton 
Roteiro: Nancy Cartwright, Peter Kjenaas
Produção:  Michael Doven, Milena Ferreira, Monica Gil, Nathan Lorch, Peter Kjenaas, Taron Lexton
Fotografia: Kevin Garrison
Elenco: Ksenia Solo, Mary Lynn Rajskub, Maria Bello

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

CineBliss divulga a lista com os 15 melhores filmes de 2017


Com 2017 prestes a dar adeus, não tem como se despedir sem antes fazer aquela retrospectiva do que rolou de melhor no mundo da sétima arte. Teve lançamentos de blockbusters tão aguardados pelos fãs de quadrinhos como a jornada da heroína da DC "Mulher Maravilha", batendo recordes de bilheteria. O musical romântico "La la land - Cantando estações", que dividiu opiniões e abalou as estruturas da entrega do Oscar de Melhor Filme, quando anunciado equivocadamente como ganhador. E o deleite visual e sonoro da Segunda Guerra Mundial nas mãos do diretor Christopher Nolan com "Dunkirk". O ano cinematográfico contemplou histórias para todos os gostos e, com certeza emocionou até mesmo os corações mais durões.

Como de costume, o blog CineBliss organizou uma listinha com os quinze melhores títulos de 2017, durante o período de 01 de dezembro de 2016 a 30 de novembro de 2017. Lembrando que a seleção foi feita de modo subjetivo e baseada nos 110 filmes vistos. Segue abaixo a seleção:


Dunkirk (Dunkirk) 
Estados Unidos, 2017
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Mark Rylance, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Cillian Murphy



Moonlight - Sob a luz do luar (Moonlight)
Estados Unidos, 2016
Direção: Barry Jenkins,
Roteiro: Barry Jenkins, Tarell McCraney
Elenco: Mahershala Ali, Janelle Monáe, Alex R. Hibbert, Andre Holland, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Tharrel Jerome



Mulher-Maravilha (Wonder Woman)
Estados Unidos, 2017
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, Flor Ferraco
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen
Leia mais em: Mulher-Maravilha



O apartamento (Forushande)
Irã, 2016
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti



La la land - Cantando estações (La la land)
Estados Unidos, 2016
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, J.K. Simmons,
Leia mais em: La la land - Cantando Estações



Corra! (Get out)
Estados Unidos, 2017
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, LiRel Howery
Leia mais em: Corra!  



Como nossos pais (Como nossos pais)
Brasil, 2017
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi
Elenco: Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Clarisse Abujamra, Felipe Rocha, Jorge Mautner
Leia mais em: Como nossos pais



Logan (Logan)
Estados Unidos, 2017
Direção: James Mangold
Roteiro: David James Kelly
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Dafne Keen, Stephen Merchant



Toni Erdmann (Toni Erdmann)
Alemanha, 2016
Direção: Maren Ade
Roteiro: Maren Ade
Elenco: Peter Simonischek, Sandra Huller
Leia mais em: Toni Erdmann



O estranho que nós amamos (The Beguiled)
Estados Unidos, 2017
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola, Thomas Cullinan
Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Colin Farrell, Elle Fanning, Oona Laurence, Angourie Rice
Leia mais em: O estranho que nós amamos 



Detroit em rebelião (Detroit)
Estados Unidos, 2017
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: John Boyega, Anthony Mackie, Will Poulter



Okja (Okja)
Estados Unidos/ Coreia do Sul, 2017
Direção: Bong Joon ho
Roteiro: Bong Joon ho, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Ahn Seo-Hyun, Paul Dano
Leia mais em: Okja



Lady Macbeth (Lady Macbeth)
Reino Unido, 2016
Direção: William Oldroyd
Roteiro: Alice Birch, Nikolai Leskov
Elenco: Florence Pugh, Paul Hilton, Christopher Fairbank

 


Terra Selvagem (Wind River)
Canadá, 2017
Direção: Taylor Sheridan
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Jeremy Renner,, Elizabeth Olsen
Leia mais em: Terra Selvagem



Thelma (Thelma)
Noruega, 2017
Direção: Joachim Trier 
Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier
Elenco: Eili Harbor, Okay Kaya



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O diretor estreante Taylor Sheridan esbanja seriedade e provocação com o filme "Terra Selvagem"


Taylor Sheridan, roteirista de "A qualquer custo"(2016) e "Sicario: Terra de ninguém"(2015) teve sua estreia na direção no filme "Terra Selvagem"(2017), em que o próprio título já indica o cenário como personagem, assim como o adjetivo selvagem, para caracterizar o lugar. O longa-metragem situado em Wyoming, nos Estados Unidos, tem na morte de uma pessoa na região da reserva indígena Wind River, uma história em busca da verdade, onde cada um é por si mesmo. 

O corpo encontrado pelo guarda florestal Coby Lambert (Jeremy Renner), logo, desperta outros problemas da região devastada por drogas e violência. O FBI envia a agente novata Jane Banner (Elizabeth Olsen) para ajudar na investigação do caso, no entanto, por não conhecer a área e não estar acostumada com o rigoroso inverno, escala Coby para auxiliá-la. Juntos, os dois caminham perigosamente num labirinto de mistérios sobre o caso e também sobre suas próprias vidas.

O diretor que logrou o prêmio de Melhor Direção na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2017, contempla o espectador com uma narrativa provocadora sobre a situação de mulheres indígenas, num local predominado pelo homem branco. As sequencias conduzidas num ritmo paciente e frio, têm nas imagens em plano aberto da vastidão da natureza - no caso as montanhas cobertas de neve - um confronto com a fragilidade e pequenez do indivíduo.

Até mesmo o personagem Coby Lambert exterioriza o lado humano gélido, contrapondo com a energética Jane Banner. Jeremy Renner, entrega uma de suas melhores performances expondo de modo preciso as diversas camadas de seu protagonista, que balança entre uma figura reservada e quieta versus desejosa em encontrar sua própria verdade fruto de um passado infeliz.

O roteiro assinado por Taylor Sheridan expõe um tema complicado e indigesto, de um modo cru e brutal arrancando reflexões profundas sobre o sistema de domínio e submissão, onde a lei do mais forte opera sobre o mais fraco. Como na maioria dos casos na sociedade patriarcal, sobra para mulher ser relegada à opressão. 
*Visto no Festival do Rio 2017
CineBliss



Ficha técnica: 

Terra Selvagem (Wind River) 
Estados Unidos, 2017
Direção: Taylor Sheridan
Roteiro: Taylor Sheridan
Produção: Elizabeth A. Bell, Peter Berg
Fotografia: Ben Richardson
Elenco: Jeremy Renner,, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Gil Birmingham 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Com roteiro bem humorado "Doentes de amor" contagia pela simplicidade e leveza


O estopim para qualquer roteiro de comédia romântica flerta na concepção básica de "menino encontra menina" ou vice versa, logo, o casal se apaixona, se desentende, enfrenta conflitos para no final, na maioria das vezes, ficarem juntos. No caso de "Doentes de amor" (2017), do diretor Michael Showalter, essa premissa até se faz presente, porém os ingredientes para conduzir a narrativa são direcionados para outro patamar, iluminando para uma outra relação, a do rapaz com os pais da mocinha.

Baseado na vida real dos roteiristas Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, o primeiro interpretado por ele mesmo e condutor da narrativa, tem em sua origem paquistanesa um dos elementos primordiais para sua jornada.  Com uma família extremamente devota das tradições, Kumail divide seu tempo como motorista de Uber, comediante e, pretendente para diversas mulheres arranjadas por sua mãe, que tem o sonho de casá-lo com alguém de mesma nacionalidade. Ao se apaixonar por Emily (Zoe Kazan), uma moça branca americana, estudante de psicologia, o comediante se vê num dilema emocional diante da tradição familiar versus seus próprios sentimentos.

Para incrementar ainda mais o conflito, Emily é internada às pressas em um hospital por causa de uma infecção, e, acaba sendo induzida ao coma. À partir daí, a narrativa desloca-se do romance do casal, para focar na relação de Kumail e os pais da jovem, Beth e Terry - respectivamente desempenhados por Holly Hunter e Ray Romano -, enquanto aguardam no hospital a melhora da filha. Os três embarcam numa aproximação um tanto quanto obrigatória, que num primeiro momento, é cercada por barreiras e preconceitos para depois ganhar novos ares. É justamente nesse ciclo que Kumail desperta para questionar sua própria vida até então governada por seus pais, tendo como mentores Beth e Terry cuja relação também passa por um momento de crise.

O roteiro bem humorado e inteligente transcorre de forma assertiva do começo até o meio da narrativa, como na cena em que Kumail e Emily estão se despedindo depois de fazerem sexo e, ela pede um Uber, a resposta vem do motorista mais próximo, no caso, o comediante. Porém, quase no final torna-se um pouco arrastada com situações um tanto quanto banais, cuja função é forçar emoções no espectador. Esse fator, não desmerece a graça e simplicidade do filme.

"Doentes de amor" produzido por Judd Apatow mesmo de "Missão madrinha de casamento" e "Descompensada", segue a linha de seus antecessores com o mesmo ritmo ágil para as piadas. Kumail Nanjiani - que interpreta Dinesh no seriado da HBO Silicon Valley -, ao emprestar sua vida para o personagem do filme, permiti revelar seu lado simpático e cativante por meio de diálogos inteligentes, sarcásticos e provocadores. Além de uma comédia romântica misturada com drama, "Doentes de amor", aposta na reflexão sobre as diferenças culturais sem deixar de ser leve e divertida.
*Visto no Festival do Rio 2017
CineBlissEK





Ficha técnica:

Doentes de amor (The Big Sick)
Estados Unidos, 2017
Direção: Michael Showalter
Roteiro:  Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani
Produção:  Barry Mendel, Judd Apatow
Fotografia: Brian Burgoyne
Elenco:  Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Como nossos pais" chega num momento oportuno para discutir a mulher contemporânea


Em 2015, o cinema brasileiro apresentou ao espectador a emprega doméstica Val (Regina Casé), em "Que horas ela volta?", da diretora Anna Muylaerte. No ano seguinte, foi a vez de Clara (Sonia Braga), em ""Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, e, esse ano, o destaque é para a personagem Rosa (Maria Ribeiro), do filme "Como nossos pais" (2016), de Laís Bodanzky (O bicho de sete cabeças; Chega de saudade). A jornada dessas três personagens brasileiras demonstra uma transformação de narrativas cinematográficas nacionais, por meio de um aumento de protagonistas femininas e um novo jeito de contar histórias. Val, Clara e Rosa, retratam os diferentes tipos de mulheres que anseiam serem heroínas de suas próprias jornadas. Seja em construir uma relação afetiva com a filha, em resistir ou em suspirar pela verdade. 

No caso de Rosa, uma mulher com seus trinta e poucos anos, a fase de buscas e conflitos sucede nos minutos iniciais do filme com a revelação bombástica de sua mãe Clarissa (Clarisse Abujamra), sobre a verdadeira identidade de seu pai. A cena da confissão que ocorre após um desastroso almoço familiar, indica o clima tenso na relação entre mãe e filha. Casada com Dado (Paulo Vilhena) e mãe de duas adolescentes, Rosa desenvolve conteúdos para uma empresa de cerâmica de banheiros, contudo, guarda em seu coração o sonho frustrado de ser uma dramaturga.

Sua rotina imersa em acúmulo de papéis - mãe, filha, esposa, trabalhadora e dona de casa-, sucumbe com a revelação de Clarissa. À partir disso, sua trajetória transforma-se em questionar seus laços afetivos e, aceitar que não consegue dar conta de tudo sozinha. Sua jornada por uma nova identidade e pela verdade, tornam-se seu propósito. 

É notório a exploração do roteiro - assinado por Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi - sob o ponto de vista da mulher, perante uma sociedade regida pelos ditames patriarcais com diálogos provocadores sobre os conflitos da mulher contemporânea. Destaca-se também as diversas referências de mulheres no filme, que buscaram transgredir o patriarcalismo tanto no mundo real, ficcional ou bíblico. No primeiro caso, a menção é para Simone de Beauvoir, com a clássica obra "O segundo sexo", de 1949, que abriu espaço para discussões e reivindicações feministas. Na literatura, a ligação é com a peça teatral "Casa de Bonecas", do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, de 1879, em que a protagonista Nora, abandona a família patriarcal. Por último, a citação da escritura referente à Eva - origem de todo pecado na Terra segundo a Bíblia - feita de um modo um tanto quanto sarcástico.

Com uma interpretação arrebatadora de Maria Ribeiro - logrou o Kikito de Melhor Atriz em Gramado -, expondo de forma intensa as diversas camadas de sua personagem, as questões sobre os papéis desempenhados pela mulher contemporânea afloram para fora da sessão de cinema e alavanca reflexões e discussões profundas. O mérito de atuações primorosas também contempla Clarisse Abujamra que faturou o Kikito, como Melhor Atriz Coadjuvante e, esbanja a complexidade de ser uma mãe intelectual de classe média, que procura resistir aos ditames da sociedade capitalista.

Vale destacar os personagens masculinos, cuja representação no longa-metragem expressam uma tentativa de nova imagem do homem. Tanto o pai de Rosa, Homero (Jorge Mautner), com seu jeito sonhador e dependente financeiramente das mulheres, como Pedro (Felipe Rocha) ou, Dado, no papel do marido exercitando na cooperação com a divisão de tarefas dentro de casa.

"Como nossos pais", chega num momento oportuno para incrementar debates sobre os papéis desempenhados tanto pelas mulheres quanto pelos homens na construção de uma sociedade mais igualitária. Além de contemplar uma delicada e expressiva relação de mãe e filha. Sem sombra de dúvidas, o cinema nacional vive um período pujante, com narrativas cinematográficas de alto nível e para todos os gostos. Não deixem de apreciar o Cinema Brasileiro!
CineBliss




Ficha técnica: 

Como nossos pais (Como nossos pais)
Brasil, 2016
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi
Produção: Caio Gullane, Rodrigo Castellar
Fotografia: Pedro J. Márquez
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Balanço do CineBliss no Festival do Rio 2017


CineBliss esteve presente mais um ano no Festival do Rio, com um total de 23 filmes vistos durante os 10 dias de maratona. Segue abaixo a lista com os títulos e, em destaque estão os 10 melhores. 
Em breve comentários dos filmes aqui no blog.


1. "Em pedaços" - Fatih Akin (Alemanha)
2. "120 batimentos por minuto" - Robin Campillo (França)
3. "Terra Selvagem" - Taylor Sheridan (Estados Unidos)
4. "Detroit em rebelião" - Kathryn Bigelow (Estados Unidos)
5. "A Ciambra" - Jonas Carpignano (Itália/ Estados Unidos/ França/ Alemanha)
6. "La vita in comune" - Edoardo Winspeare (Itália)
7. "Aos teus olhos" - Carolina Jabor (Brasil)
8. "O estado das coisas" - Mike White (Estados Unidos)
9. "Ó céu de Tóquio à noite é sempre mais denso tom de azul" - Yuya Ishii (Japão)
10. "Alanis" - Anahí Berneri (Argentina)
11.  "Rastros" - Agnieska Holland (Polônia/Alemanha/República Tcheca/ Suécia/ Eslováquia) 
12. "Marjorie Prime" - Michael Almereyda (Estados Unidos)
13. "A câmera de Claire" - Hong Sang-soo (França/ Coreia do Sul)
14. "O nome da morte" - Henrique Goldman (Brasil)
15. "A Aliança" - Rahmatou Keita (Niger)
16. "Doentes de amor" - Michael Showalter (Estados Unidos)
17. "Tschick" - Fatih Akin (Alemanha)
18. "Uma criatura gentil" - Sergei Loznitsa (França)
19. "Atrás há relâmpagos" - Julio Hernández Cordón (Costa Rica/ México)
20. "Based on a true story" - Roman Polanski (França/ Bélgica)
21. "Zama" - Lucrecia Martel (Brasil/ Argentina/ Espanha/ Portugal/ México)
22. "Tulipani: Amor, honra e uma bicicleta" - Mike van Diem (Holanda/ Itália/ Canadá) 
23. "Depois daquela montanha" - Hany Abu-Assad (Estados Unidos)