quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

"Colette" expressa os primórdios gritos femininos em buca de liberdade e igualdade na sociedade ocidental


A cinebiografia da escritora francesa do século XX, Sidonie Gabrielle Colette, ganha as telas do cinema hoje com a estreia do filme "Colette"(2018), do diretor inglês Wash Westmoreland (Para sempre Alice). Estrelado pela atriz Keira Knightley no papel da personagem-título, o filme retrata a jornada dessa mulher de origem camponesa, à frente de seu tempo, em Paris. Num primeiro momento da narrativa, a protagonista esbanja ares de inocência e, depois torna-se numa potência transgressora em busca da liberdade e igualdade de direitos e, em romper com comportamentos patriarcais. 

O período escolhido do longa-metragem permeia o casamento abusivo com Willy (Dominic West), um autor narcisista e com pouca criatividade, que contrata escritores - incluindo a própria esposa-, para escrever histórias e publicá-las como de sua autoria. O primeiro romance escrito por Colette - "Claudine à l'école" (1900) - e, assinado por Willy, torna-se em um fenômeno de vendas entre as mulheres e permite aos dois ganharem dinheiro e fama entre a sociedade parisiense. No entanto, essa união logo expõe o lado dominador de Willy sobre Colette, chegando a trancá-la dentro de um quarto para produzir mais narrativas. Ao mesmo tempo, a jovem começa a desfrutar de outros prazeres, cujo resultado é visto em seu questionamento sobre o casamento e na reivindicação por direitos das obras.

"Colette", é um ótimo exemplo dos primeiros gritos femininos em busca de liberdade e igualdade numa sociedade constituída por meio da dominação e exploração das mulheres. A personagem em seu universo burguês - entediada, fútil e com desejo - ao dar asas para imaginação, desperta para experimentar as mesmas aventuras dos homens, mas pelo fato de ser mulher, o preço a se pagar é alto. 

Observa-se já nas primeiras cenas do filme,  o comportamento subversivo da personagem que logo pode ser visualizado através de seu corte de cabelo (curto) ou em sua forma de se vestir (calças compridas e gravata), algo atípico para mulheres da época. Colette vai além, ao demonstrar também seu desejo por outras mulheres e em corporificar uma fisionomia andrógina.  

Destaque para a atriz inglesa Keira Knightley, cuja entrega na performance reverbera de modo virtuoso os conflitos e prazeres da escritora Colette, sem parecer algo estereotipado e, sim, natural. A progressiva conscientização de seus direitos referentes às suas obras, ganha uma fúria libertadora na cena em que a personagem reivindica colocar o seu nome como autora do livro junto de seu marido.

O roteiro consegue captar com excelência o ambiente de transformação no qual os personagens estão inseridos com um ritmo penetrante e eficiente. O espectador em poucos minutos de duração do filme, já se sente absorto na jornada da protagonista feminina e em como ela irá contar sua história. Como se Colette expressasse a ingenuidade e a cólera de tantas outras mulheres que foram oprimidas por homens e não puderam ser reconhecidas por seus trabalhos. 
CineBliss ***
*Filme visto no Festival do Rio 2018 




Ficha técnica: 

Colette (Colette)
Estados Unidos/ Reino Unidos/ Irlanda do Norte, 2018
Direção: Wash Westmoreland 
Roteiro: Rebecca Lenkiewicz, Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Produção:  Caroline Levy, Christine Vachon, David Minkowski, Dominic Buchanan, Elizabeth Karlsen, Gary Michael Walters, Ildiko Kemeny, Lisa Zambri, Michel Litvak, Pamela Koffler, Stephen Woolley
Fotografia: Giles Nuttgens
Montagem: Lucia Zucchetti
Elenco: Keira Knightley, Dominic West, Denise Gough 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

"Tinta Bruta" sonda o poço sem fundo da solidão e da sensualidade masculina


O filme brasileiro "Tinta Bruta" (2018), dos realizadores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, logrou no Festival de Berlim este ano, o Teddy Awards, e, culminou recentemente no grande vencedor do Festival Internacional de Cinema do Rio com a conquista do troféu Redentor nas categorias Melhor Longa-Metragem de Ficção, Melhor Ator para Shico Menegat, Melhor Ator Coadjuvante para Bruno Fernandes e Melhor Roteiro. 

O drama que estreia hoje nos cinemas, acompanha a trajetória do jovem Pedro (Shico Menegat) pouco antes da partida de sua irmã de Porto Alegre. A separação por quem nutre uma relação muito próxima desde da morte da mãe, escancara o poço sem fundo da progressiva solidão que encontra espaço na vida do protagonista. Para aumentar ainda mais sua dor, Pedro está envolvido em um processo judicial cuja sentença pode lhe colocar na cadeia. Sua única válvula de escape e renda vem das apresentações eróticas feitas em uma webcam, transmitidas ao vivo em seu website e visualizada por inúmeros seguidores anônimos. Para se diferenciar, ele pinta o corpo com tinta reluzente, porém, descobre a existência de outro rapaz de sua cidade copiando seu trabalho e, consequentemente, decide tomar providências.

A envolvente performance do ator Shico Menegat transborda o olhar vazio e triste do personagem. Seu corpo potencializa a fragilidade e ao mesmo tempo a virilidade de um jovem cercado de insegurança e medo dos olhares julgadores das pessoas. Esse mesmo corpo, encontra liberdade e segurança durante as performances online e tenta buscar forças para conseguir seguir adiante frente às adversidades da vida.

Por sua vez, o roteiro trafega de forma afetuosa esta história rodeada de temas complexos, tanto que na cena da revelação sobre o motivo de Pedro estar sendo julgado, o espectador não visualiza o evento, mas imagina como ocorreu pela descrição feita por Léo (Bruno Fernandes). Um mecanismo simples, porém eficaz, pois possibilita um olhar ativo e maior envolvimento do público para com a jornada do protagonista.

A trilha sonora é um elemento primordial para a condução da narrativa, uma vez que cria o clima sedutor para Pedro revelar seu lado visceral, assim como a fotografia das cenas das apresentações, em que o escuro dá vazão para reluzir o colorido da tinta neon e transparecer a sensualidade e a alma do personagem. 
CineBliss **




Ficha técnica: 

Tinta Bruta (Tinta Bruta) 
Brasil, 2018
Direção: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon 
Roteiro: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon 
Produção: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon 
Fotografia: Glauco Firpo
Montagem: Germano de Oliveira
Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Sandra Dani 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

CineBliss anuncia a seleção dos 20 melhores filmes de 2018


A menos de um mês para nos despedirmos do complexo 2018, nada mais prazeroso em dizer adeus para esse ano e ter esperança para um 2019 repleto de amor e tolerância. O cinema com sua função de janela para o mundo, proporcionou nesses 365 dias centenas de títulos cinematográficos que potencializaram reflexões e discussões sobre a sociedade, flertaram com rupturas de comportamento, encantaram corações e sondaram os poços sem fundo da alma humana. 

Filmes como "Infiltrado na Klan", de Spike Lee ou o alemão "Em pedaços", de Fatih Akin retrataram o mal-estar e vazio moral da contemporaneidade. Por sua vez, foi um ano marcante para os blockbusters com histórias de super-heróis que não se aterem apenas em efeitos especiais, mas em proporcionarem uma maior profundidade nos personagens como nos casos de "Pantera Negra", de Ryan Coogler e "Vingadores: Guerra Infinita", de Anthony Russo e Joe Russo, ambos da Marvel. O romance também garantiu espaço com destaque para "Me chame pelo seu nome", de Luca Guadagnino e "A forma da água", de Guillermo del Toro. Já o Brasil teve no gênero terror um de seus melhores filmes, "O animal cordial", de Gabriela Amaral Almeida.

Isto posto, o blog CineBliss organizou uma lista com os vinte melhores títulos lançados no Brasil este ano, durante o período de 01 de dezembro de 2017 a 30 de novembro de 2018. Dentre os escolhidos constam histórias oriundas dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Rússia, Líbano, Brasil, Coreia do Sul e França. Vale lembrar que a seleção foi feita de modo subjetiva e baseada nos 170 filmes vistos. Segue abaixo a seleção em ordem de preferência:


Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)
Estados Unidos, 2018
Direção: Spike Lee
Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Ron Stallworth, Spike Lee
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Alec Baldwin, Laura Harrier
Leia mais em: Infiltrado na Klan



Três anúncios para um crime (Three Billboard Outside Ebbing, Missouri)
Estados Unidos, 2017
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell
Leia mais em: Três anúncios para um crime

 

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)
Estados Unidos/ Itália/ França/Brasil, 2017
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg
Leia mais em: Me chame pelo seu nome



Pantera Negra (Black Panther)
Estados Unidos, 2018
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Joe Robert Cole, Ryan Coogler
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Daniel Kaluuya, Forest Whitaker, Andy Serkis, Angela Bassett  



Viva - A vida é uma festa (Coco)
Estados Unidos, 2017
Direção: Adrian Molina, Lee Unkrich 
Roteiro: Adrian Molina, Jason Katz, Lee Unkrich, Matthew Aldrich
Elenco: Benjamin Bratt, Gael García Bernal, Anthony Gonzalez

 

Vingadores: Guerra Infinita (The Avengers: Infinity War)
Estados Unidos, 2018
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Roteiro:  Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Chris Pratt, Scarlett Johansson, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Mark Ruffalo, Chadwick Boseman, Tom Hiddleston, Tom Holland, Zoe Saldana, Peter Dinklage, Benedict Cumberbatch, Benedict Wong, Don Cheadle, Josh Brolin,  Don Cheadle



A forma da água (The shape of water)
Estados Unidos, 2017
Direção: Guillermo del Toro 
Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer

 

Em pedaços (Aus dem Nichts)
Alemanha, 2017
Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin, Hark Bohm
Elenco: Diane Kruger, Numan Acar, Ulrich Tukur
Leia mais em: Em pedaços 

  

A festa (The party)
Reino Unido, 2017
Direção: Sally Potter 
Roteiro: Sally Potter, Walter Donohue
Elenco: Bruno Ganz, Cherry Jones, Cillian Murphy, Emily Mortimer, Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Timothy Spall

 

Ilha dos cachorros (Isle of dogs)
Estados Unidos, 2018
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Jason Schwartzman, Kunichi Nomura, Roman Coppola, Wes Anderson
Elenco: Bill Murray, Bryan Cranston, Edward Norton, Frances McDormand, Greta Gerwig, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Liev Schreiber, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Yoko Ono

 

O animal cordial (O animal cordial)
Brasil, 2017
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Camila Morgado, Humberto Carrão  
Leia mais em: O animal cordial

 

Sem amor (Nelyubov)
Rússia, 2017
Direção: Andrey Zvyagintsev 
Roteiro: Andrey Zvyagintsev, Oleg Negin
Elenco: Alexey Rozin, Maryana Spivak, Matvey Novikov



"Em chamas" (Boening) 
Coreia do Sul, 2018
Direção: Lee Chang-Dong
Roteiro: Oh Jung-Mi, Lee Chang-Dong
Elenco: Yoo Ah-In, Jun Jong-Seo, Yeun Steven  
Leia mais em: Em chamas 



As viúvas (Widows) 
Estados Unidos, 2018
Direção: Steve McQueen 
Roteiro: Steve McQueen, Gillian Flynn
Elenco: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Cynthia Erivo, Colin Farrell, Liam Neeson
Leia mais em: As viúvas 



Custódia (Jusqu'a la garde)
França, 2017
Direção: Xavier Legrand 
Roteiro: Xavier Legrand 
Elenco: Denis Menochet, Léa Drucker, Thomas Gioria  



120 batimentos por minuto (120 battements par minute)
França, 2017
Direção: Robin Campillo 
Roteiro: Philippe Mangeot, Robin Campillo
Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Adele Haenel, Antoine Reinartz  



Verão (Leto)
Rússia, 2018
Direção: Kirill Serebrennikov
Roteiro: Mikhail Idov, Lili Idova, Kirill Serebrennikov
Elenco: Teo Yoo, Irina Starshenbaum, Roman Bilyk   
Leia mais em: Verão 



O insulto (L'insulte)
Líbano, 2017
Direção: Ziad Doueiri
Roteiro: Ziad Doueir, Joelle Touma 
Elenco: Adel Karam, Kamel El Basha 



Nasce uma estrela (A star is born)
Estados Unidos, 2018
Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Alan Campbell, Bradley Cooper, Dorothy Parker, Eric Roth, Robert Carson, Will Fetters, William A. Wellman
Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos




Ferrugem (Ferrugem)
Brasil, 2018
Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Aly Muritiba, George Moura, Jessica Candal
Elenco: Clarissa Kiste, Dudah Azevedo, Enrique Diaz, Giovanni de Lorenzi, Igor Augustho, Pedro Inoue, Tifanny Dopke




quinta-feira, 29 de novembro de 2018

"Utøya - 22 de julho" transborda a tensão e o pânico de jovens noruegueses frente à um atentado terrorista



A Noruega, país nórdico da Europa com o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, viveu em 22 de julho de 2011, um dos piores dias de sua história quando ocorreu uma explosão na zona de prédios governamentais da capital, Oslo, e, poucas horas depois a invasão do terrorista de extrema-direita Anders Behring Breivik, na ilha de Utøya, em que atirou contra centenas de jovens, deixando 77 mortos e dezenas de feridos.

Baseado neste trágico evento, o novo longa do diretor Erik Poppe, "Utøya - 22 de julho" (2018), transborda a tensão e o pânico que se alastraram nos jovens noruegueses durante mais de uma hora de tiroteio na ilha. O filme que estreia hoje nas principais salas de cinema do país, acompanha Kaja (Andrea Berntzen) - uma adolescente prestativa e com personalidade de liderança -, minutos antes de iniciar a onda de tiros e sua busca em encontrar a irmã e sobreviver a esse assustador e caótico cenário.

Com uma câmera praticamente colada em Kaja, o espectador é conduzido freneticamente a cada corrida ou esconderijo da personagem no meio da mata. Dessa forma, pode-se conhecer um pouco sobre alguns dos jovens, suas respectivas histórias e a vontade de viver. Num primeiro momento, a protagonista aparenta estar lúcida em sua procura pela irmã, porém, conforme o tiroteio prevalece ela mergulha em um turbilhão de fatalidades, o que lhe permite dar vazão ao colapso emocional. 

O som é um elemento primordial para unidade dramática de cada cena, pois é através desse mecanismo que o espectador observa a aproximação do atirador ou o desespero dos personagens. O barulho impactante dos tiros, assim como o suspiro, a respiração ofegante ou o silêncio torna a experiência ainda mais real.

Os planos gerais ou close-up mostram imagens devastadoras de corpos estirados na mata ou de rostos perplexos, possibilitando visualizar o cenário desastroso de sonhos interrompidos pelo ato terrorista de um homem. O filme com 98 minutos de duração, consegue captar com primor essa realidade brutal que avassalou esse país de primeiro mundo. Nesse total, 72 minutos de tiroteio são exatamente semelhantes aos vivenciados no acampamento.
CineBliss ***




Ficha técnica:

Utøya - 22 de julho (Utøya 22. juli)
Noruega, 2018
Direção: Erik Poppe
Roteiro: Anna Bache-Wiig, Siv Rajendram Eliassen
Produção: Finn Gjerdrum, Stein B. Kvae
Elenco: Andrea Berntzen, Aleksander Holmen, Brede Fristad

terça-feira, 27 de novembro de 2018

"Um homem comum" reverbera os conflitos internos de um criminoso de guerra


Estreia nesta quinta-feira (29) o filme "Um homem comum"(2017), do diretor Brad Silberling (Cidade dos anjos), em uma coprodução entre Estados Unidos e Sérvia. Na narrativa cinematográfica, a cidade de Belgrado é o cenário para o drama da jornada do criminoso de guerra O General (Ben Kingsley), cujos feitos são condecorados por uns e repudiados por outros.

Devido a esse conflito, O General vive em reclusão fugindo das autoridades internacionais, mudando de lugares com frequência e contando com a ajuda de seus apoiadores. Em um dos seus esconderijos conhece a jovem e solitária Tanja (Hera Hilmar), com a qual inicia uma relação de cumplicidade. Logo, O General descobre que Tanja na verdade não é uma empregada, mas sim, uma agente secreta com a missão de protegê-lo. Conforme o cerco se fecha para capturá-lo, lhe resta apenas a opção de confiar nela. 
 
Com uma fotografia escura com ares de mofo, o espectador é arremessado para dentro de um apartamento claustrofóbico, onde discussões acaloradas sobre nacionalismo, crimes de guerra e passado violento são ecoados na tentativa de redenção do protagonista. As poucas cenas externas, mostra uma região que em algum momento do passado fora devastada pela guerra e agora busca um recomeço. No filme, essa transição do passado sombrio para um futuro melhor está em conseguir fazer parte da União Europeia. Entrentato, para tal feito a exigência da comunidade é o aprisionamento e julgamento do General. 

Os 90 minutos de "Um homem comum" são embriagados pelo conflito interno do protagonista, com pouco suspense e mais diálogo, uma vez que o histórico de si mesmo é carregado de contradições: sofre com traumas familiares sem aparentemente demonstrar arrependimento dos crimes cometidos. Essa complexidade de personagem está notável na performance do ator Ben Kingsley, em que pontua com eficiência a vaidade e o sofrimento deste homem 'supostamente' comum.
CineBliss **



Ficha técnica: 

Um homem comum (An ordinary man)
Estados Unidos/Sérvia, 2017
Direção: Brad Silberling 
Roteiro: Brad Silberling
Produção: Brad Silberling,  Ben Kingsley
Elenco: Ben Kingsley, Hera Hilmar, Peter Serafinowicz

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

"O quebra-cabeça" sensibiliza o despertar de uma mulher submissa e recatada


Até o fim do século XIX na sociedade ocidental, o papel da mulher esteve destinado ao espaço privado relegada a cumprir apenas a função de esposa, dona de casa e mãe, sem permissão para estudar ou seguir uma profissão. Essa divisão de papéis sociais entre homens e mulheres aprisiono-as no âmbito doméstico, não consentindo sua autonomia em outras áreas que não fosse o lar. Por muito tempo elas foram tratadas como cidadãs de segunda classe, submissas a pais, maridos e irmãos, ou seja, a homens. A mudança de cenário começa a acontecer só a partir da segunda metade do século XX, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho e uma maior participação no espaço público. 

Mesmo com certos avanços em questões de direitos e igualdade entre homens e mulheres, o retrato em pleno século XXI está longe de ser ideal, uma vez que o patriarcado com seu sistema de dominação e exploração da mulher continua visível, tanto na realidade quanto na ficção. Como no caso do filme lançando esta semana nos cinemas "O quebra-cabeça" (2018), do diretor Marc Turtletaub, cuja protagonista Agnes (Kelly Macdonald) vive em função do bem-estar da família, se preocupando exclusivamente com os desejos e necessidades do marido e dos filhos, presa em sua bolha doméstica. 

O chamado para aventura na rotina de Agnes ocorre ao desembrulhar uma caixa de presente ganho em seu aniversário de 40 anos, um quebra-cabeça. A protagonista, ao começar a juntar as peças logo descobre a velocidade incrível que tem para montá-los e, arrisca-se em participar de um torneio nacional de quebra-cabeça em parceira com Robert (Irrfan Khan), um homem divorciado, rico e que só assiste notícias de catástrofes. 

Agnes, uma católica fervorosa que até então aparentava ter parado no tempo tanto na vestimenta, na decoração da casa, na repulsa à tecnologia ou na submissão ao marido, inicia um processo de transformação em sua autonomia e permiti-se vivenciar algo que lhe faz bem. Suas idas à casa de Robert, proporciona entrar em contato com outro universo completamente distinto do seu e a romper com um comportamento padronizado.

"O quebra-cabeça" é um remake do filme argentino "Rompecabezas" (2009), da diretora Natalia Smirnoff, cuja versão atual é conduzida com ritmo lento e delicado, e assim, o espectador aos poucos torna-se íntimo da rotina de Agnes e observa o nível de sociedade conservadora destinada ainda a muitas mulheres, onde estas são cercadas pela solidão, servidão e vazio interno. A jornada da personagem principal, ilustra quantas mulheres sofrem caladas com seus destinos, sendo que algumas por motivos maiores permanecem cumprindo com suas obrigações e, outras decidem perambularem e serem protagonistas de suas histórias.
CineBliss ***
*Visto no Festival do Rio 2018




Ficha técnica: 

O quebra-cabeça (Puzzle) 
Estados Unidos, 2018
Direção: Marc Turtletaub
Roteiro: Oren Moverman 
Produção: Wren Arthur, Guy Stodel, Marc Turteletaub, Peter Saraf 
Fotografia: Chris Norr 
Montagem: Catherine Haight 
Elenco: Kelly Macdonald, Irrfan Khan, David Denman, Bubba Weiler, Austin Abrams

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O filme argentino "O anjo" é destaque no Festival do Rio 2018


O filme argentino "O anjo", do diretor Luis Ortega, selecionado para concorrer a uma vaga ao Oscar 2019 na categoria Melhor Filme Estrangeiro, é um dos destaques da programação do Festival do Rio hoje, com uma sessão às 21h30, no Estação NET Gávea 4 e outra no domingo (11), às 21h15, no Kinoplex São Luis 2.

A narrativa baseada em uma história real, segue o adolescente de 17 anos Carlitos (Lorenzo Ferro), cuja aparência angelical não condiz com o lado sombrio de suas entranhas. Filho único de uma família trabalhadora e honesta, na Buenos Aires, de 1971, o jovem prefere viver de pequenos delitos. Na escola, conhece o sedutor Ramon (Chino Darín), por quem logo se encanta tanto de um modo voluptuoso como parceiro ideal para revolucionar suas façanhas no mundo do crime e assumir seu real instinto: matar pessoas. 

O filme lembra um pouco outro fenômeno argentino "O clã" (2015), de Pablo Trapeiro, por também ser inspirado em eventos reais, por transcorrer em um determinado momento da ditadura militar na Argentina e pela violência transposta nas telas de forma ímpia e desconcertante. A diferença é que no filme de 2015, às agressões físicas eram permeadas pelo dinheiro e, no caso de "O anjo", o ato de roubar aparenta ser apenas um dispositivo para a real intenção do personagem, de simplesmente agir com sangue frio e tirar a vida de alguém.

O ritmo do longa-metragem é permeado por muita musicalidade, tanto que em certas cenas dá a sensação de videoclipe, como no caso do abandono do carro realizado por Carlitos. Esse mecanismo não chega a atrapalha o desenrolar da narrativa, tanto que a canção "El extraño del pelo largo", de La Joven Guardia é ressoada no início e final do filme.

Segue abaixo as datas, horários e lugares de exibição do filme "O anjo". O Festival do Rio acontece entre os dias 01 a 11 de novembro. Para maiores informações acesse o site  Festival do Rio

Datas e horários
09/11 (sexta-feira) - 21h30 - Estação NET Gávea 4
11/11 (domingo) - 21h15 - Kinoplex São Luís 2




Ficha técnica: 

O anjo (El Ángel) 
Argentina/Espanha, 2018
Direção: Luis Ortega
Roteiro: Luis Ortega, Rodolfo Palacios, Sergio Olguím
Produção: Hugo Sigman, Sebastian Ortega, Pedro Almodóvar, Augustín Almodóvar
Fotografia: Julían Apeteguío 
Montagem: Guillermo Gatti
Elenco: Lorenzo Ferro, Chino Darín, Mercedes Móran,